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28
Abr24

28/04/2024

por Quiquera

Saí da garagem do trabalho, 7h da manhã.

Na minha frente um arco íris a avisar que vinha mais chuva.

Enquanto avançava na estrada o arco íris surgia cada vez mais brilhante. Completo.

A cada passo, parecia mudar de direcção. Ora mergulhava no mar, ora dava um novo colorido às casas.

Acabei por me desviar do caminho, seguindo-o. Não sei o que me deu. Se foi o cansaço, o sono, a tristeza, ou ser domingo. 

Numa rua vazia, decidi estacionar o carro, num parque também ele vazio, e sair.

Senti as gotas grossas de chuva, enquanto o escurecer do céu fazia desaparecer o arco íris. Os pássaros cantavam nas árvores. Do carro, cuja porta deixei aberta e a chave na ignição, vinha o som de Absolute Beginners de David Bowie. 

Pacifiquei-me.

Voltei para o carro e fui para casa dormir, levando no peito o momento em que a natureza me ofereceu um arco íris para me desviar do caminho habitual. 

É uma das vantagens de sair do trabalho de manhã. Ter o vazio só para nós.

 

IMG_20240428_074904_541.jpg

publicado às 22:10

19
Abr24

19/04/2024

por Quiquera

Quando éramos adolescentes, eu e T, numa espécie de filosofia conhecedora da vida, rematávamos as nossas conversas com uma frase mantra:

Life's a bitch and then you die 

Dizíamos com o tom próprio dos 15 anos que achavam que já tinha percebido o mundo. Em certa medida não estávamos erradas.

A frase vinha de uma qualquer canção da qual não guardo memória nenhuma.

Acredito que tenha sido trazida por T. 

Era a minha melhor amiga desde os 11 anos e ainda hoje dispo a minha alma sem pruridos perante os seus ouvidos e o seu olhar.

T e eu vivíamos no mesmo bairro, mas éramos de mundos diferentes. O que não importava nada. Cada uma alimentava-se do conhecimento da outra e com isso construíamos a noção do mundo.

T nas férias viajava enquanto eu ficava em casa a ajudar a cuidar dos meus sobrinhos.

De cada viagem trazia-me algo. Pequenos objectos - alguns ainda os tenho - mas acima de tudo as impressões de tudo o que tinha visto e sentido. 

Dizia frequentemente 

Estive num sítio que era a tua cara

E eu bebia sofregamente tudo o que me contava. 

Adulta, viajei um pouco e estive em alguns dos sítios que referiu. Eram, efectivamente, a minha cara.

40 anos passaram. Eu e T continuamos em mundos diferentes.

Na semana passada almoçámos juntas.

Falámos de trabalho, da família. Do que vemos. Do que sentimos. Do que somos.

A dada altura, de alma despida, disse-lhe 

A vida cansa-me

T no seu jeito honesto respondeu 

Acredito

E não foi preciso dizer mais nada porque sei que sim. Que acredita e compreende.

Agradeço à vida ter-me trazido aquela rapariga alta e magra, de joelhos frequentemente escalavrados.

Somos dois mundos diferentes ligados pelo abraço da amizade. 

Com ela o mantra fica mais leve

Life's a (little less) bitch and then you die

 

Quiquera 

publicado às 07:29

14
Abr24

14/04/2024

por Quiquera

Enquanto estou aqui sentada, na hora final de uma noite de pouco trabalho, descubro em mim uma sensação de inexistência, de irrealidade. 

De tanto escrever e apagar, concluo que nem sei como o explicar.

É como se me visse dentro do corpo de uma estranha, a quem observo, mas que não reconheço.

Penso que talvez esteja a ficar doida, ou simplesmente estou cansada. Afinal já é a terceira noite.

Mas... Esta sensação de não me reconhecer não é nova. É algo que cresceu com os anos. Alicerçada em comentários, elogios, criticas que me foram dadas, bem intencionadas, mas que aumentavam, alimentavam, está estranheza de mim em mim.

Quem terá razão? O que me vê de fora e diz o que vê, ou eu que comigo convivo a tempo inteiro, mas que sou incapaz de me reconhecer. 

Talvez se fechar os olhos e mergulhar no escuro da minha noite interna, consiga reencontrar a minha voz, o meu cheiro. O meu ser.

Talvez. Quando puder.

 

Quiquera

publicado às 05:46


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