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18
Ago23

18/08/2023

por Quiquera

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É incrível o silêncio que se pode fazer sentir numa noite de nevoeiro.

Como se todo o mundo se tivesse eclipsado na limpidez do dia

O cheiro a maresia enche-me os pulmões, o céu avermelhado confunde um pouco a noção de tempo. 

Procuro no relógio a surpresa de já serem 5 da manhã.

Ao longe, subitamente, um som repetido. Algum despertador ignorado?

Espanta-me o regresso da insónia, que julgava desaparecida. As últimas noites têm sido de sonhos e pesadelos, alternados.

O frio e a humidade convidam ao regresso à cama, ao pouco calor que ali encontro. Mas receio voltar ao sono.

Não sei o que me angustia mais: se os pesadelos, se os sonhos em que os mortos regressam para conversar.

Parece que o nevoeiro desperta em mim a saudade de invernos longínquos, em que o calor dentro de mim era maior do que o do sol. 

 

Fazes-me falta.

 

O despertador desconhecido continua. O seu dono não acorda, mas eu desperto do torpor de pensamentos irrequietos. 

Talvez seja para isso que toca. Para me despertar de memórias inglórias.

Inebria-me este cheiro a mar, a noite fria, a silêncio. 

 

Talvez possa fingir que ainda aqui estás.

 

Entretanto o despertador calou-se.

É tempo de voltar ao sono.

Aos sonhos, talvez.

Mas permaneço, sentada a olhar o nevoeiro, a escutar o regresso do piar da coruja. Único som que me acompanha.

Falta-me a coragem para enfrentar a cama.

 

publicado às 04:55

09
Ago23

09/08/2023

por Quiquera

1:44.

A noite está parada, silenciosa.

Minto.

Quando atento no silêncio, percebo os estalidos dos ramos sob o peso da humidade.

Fora isso, quase nada. 

Um carro que passa, ligeiro.

Sonho alguém de regresso a casa. Um corpo que o espera.

As corujas não se mostram. 

Os grilos ou cigarras também não. 

(Nunca sei qual é qual.)

Da janela as árvores, quietas, albergam mais silêncios e quietudes.

Às vezes, perante tal silêncio, apetece-me fazer um estrondo. Só para garantir que o mundo não é apenas sonho.

Uma espécie de rebeldia, que sobe por mim, que toma o poder, faz-me sorrir, travessa.

Ajeito os lábios e assobio. 

Nada de muito barulhento, não.

Apenas o suficiente para que, da luz do prédio em frente, surja a sombra de alguém que espreita.

(Talvez o tal corpo que espera o carro.)

Sorrio para o céu avermelhado, reconfortada pela confirmação.

O mundo continua lá fora e eu ainda não sou sonho apenas.

 

Quiquera

 

publicado às 01:43


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