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17
Jun23

17/06/2034

por Quiquera

Cá estou eu, deitada, a olhar o teto.

Luz suave, temperatura amena, cansaço imenso, sono indeciso.

O corpo reconforta-se com o prazer do descanso. Já a cabeça, é toda uma outra história.

Dou comigo a pensar: devia ter nascido poeta. Ou pintora. Em vez disso saí assim: prática, pouco dada a artes. Por vezes profundamente racional. De uma forma quase irracional.

A cabeça divaga. Debate-se. 

"Para que nasci? Qual é o meu propósito na vida?"

Será que tenho algum, sequer? Há dias em que me parece que me limito a passar pela vida e esqueço-me de a viver.

Paro.

Os olhos choram de cansaço, mas fecha-los apenas, não resulta.

Regressa o diálogo interno

"Escreve" comando-me.

"Para quê? Quem quer ler as minhas insónias. São iguais a tantas outras"

"Não escreves para os outros, mas para dares espaço ao sonho"

Assim é. Debito palavras na esperança de esvaziar um canto da mente onde o sonho possa entrar.

Quem sabe, talvez sonhe ser poeta ou pintora.

 

Quiquera

publicado às 01:23

16
Jun23

16/06/2023

por Quiquera

Ando há vários dias a sentir que algo anda no ar. 

Não me perguntem o que é, não sei. Apenas sinto. Sinto no corpo, mais que na alma.

Não é uma questão esotérica, ou algo de místico. Apenas algo que me acompanha desde pequena.

Em algumas alturas pareço ficar hipersensível ao ambiente que me rodeia e dou em farejar as tempestades antes de efectivamente se desencadearem.

Um pouco como as dores de cabeça antes de uma trovoada.

São momentos em que, para compensar este stress, esta sensação que acaba por se tornar ansiogénica, por não saber o que aí vem, dou comigo a dançar a qualquer música, a cantar, numa tentativa de exorcizar tolices.

Embora seja algo recorrente, há muito que não sentia assim com tanta intensidade.

Lembro-me andar assim quando a minha irmã estava doente. Sabia que estava bastante mal. Umas semanas antes ofereceram-me trabalho num local novo, a uma hora de casa. Lembro-me de ter pensado "aguenta aí irmã, dá-me a hipótese de ir lá, pelo menos a primeira vez". Fui e no regresso a casa, lembro-me de vir no carro a cantar a pulmão solto, a dançar, a sentir esta necessidade de exorcizar. Na manhã seguinte, quando o telefone tocou já sabia o que iam dizer.

Também aconteceu com um grande amigo. Um dia, tive a estúpida sensação que nos estávamos a despedir em definitivo. Comentei com uma amiga próxima que me fez rir da palermice que senti, pois no dia seguinte tínhamos um jantar de grupo marcado por ele. Não foi. Nunca mais estivemos juntos. Desconfiei muitas vezes se teria sentido o mesmo, pois a nossa despedida tinha sido muito atípica, de parte a parte.

Hoje procuro afastar esta ansiedade. Rio-me de mim mesma pela tolice que isto é. Acreditar nestas sensações não é próprio de alguém racional como eu. 

Resolvi escrever aqui, numa tentativa de me libertar. 

Ainda tenho umas quantas horas de trabalho pela frente hoje e preciso estar focada. Defendo-me desabafando aqui, a ver se a parvoíce me passa.

Já que não dá para dançar ou cantar como se não houvesse amanhã.

 

Quiquera

publicado às 17:02

11
Jun23

11/06/2023

por Quiquera

Chego à cama e sento-me, direita, bem na borda da mesma.

Na mão um livro, um dos vários que estou a ler. 

Tornou-se um hábito, com a faculdade, caros livros lidos em simultâneo: os técnicos, a poesia, a literatura, o livro do disparate. Permaneço nesse costume, por puro hábito, apenas.

Leio um pouco todas as noites. A poesia se autor alheio a quem o lê, seja prosa técnica ou da outra, tudo continua a ser poesia.

Pouso o livro cansada, os olhos choram a pedir sonhos, mas deixo-te ficar.

Leio os livros ou percorro as palavras, a velocidade de cruzeiro, numa necessidade horas de letras, vírgulas, pontos e espaçamentos, que preenchem folhas que fogem ao branco que tanto nos aflige.

Será que leio a sério ou passo pelos livros? Leio como vivo, sem objectivo, sem linha condutora, completa.

Perco-me nos pensamentos, enquanto os olhos continuam a chorar pela almofada.

Na vida existe um guião cultural de acontecimentos a experimentar, que ou cumprimos ou, se não o fizermos, procuramos justificar. Tudo numa tentativa de criar um fio condutor, uma história que nos faça sentido. 

Leio como vivo. Não segui o guião esperado, mas também não consigo antever uma linha condutora da minha vida. Ou não a quero ver.

Olho de novo as almofadas, por entre os olhos que viraram mar, a pedir bem mais que descanso.

A pedir que seja gente.

Raios de insónia! Nas noites de cansaço o corpo resiste ao sono, num paradoxo motivado pelo medo de não ser capaz de dormir. De tanto temer a insónia, acabo por não dormir.

De tanto ter medo de errar a vida, acabo por não viver.

Vou apenas desfiando acontecimentos, como as letras dos livros, a encher espaços brancos que, de alguma forma, me apavoram.

 

Quiquera

 

publicado às 02:32

07
Jun23

07/06/2023

por Quiquera

Aproveitei o feriado e tirei a tarde de descanso. Apenas a tarde, que a manhã foi feita a trabalhar. 

Há que não habituar mal o corpo e a cabeça.

Aproveitei os cinco minutos de sol.

Vi dois episódios de uma série que ando a ver há meses.

E quando me canso de olhar para a televisão, fico parada na penumbra da sala a olhar a parede branca em frente.

Será possível que perdi a capacidade de sentir prazer de uma tarde sem fazer nada. 

Naquela parede passou tudo o que estava por fazer: os relatórios por escrever; o escritório por arrumar; a pós-graduação para estudar; e o corpo continuou quieto enquanto a cabeça acelerou.

Devia ser (também) nisto que Einstein pensou quando começou a dizer que o tempo/espaço era relativo.

Estranho. 

Sabemos que estamos no limite, reconhecemos os sinais. No meu caso as palavras trocadas, os sonhos agitados, a sensação de falta de ar com que acordo a meio da noite, depois de um sonho em que alguém me sufoca com uma almofada e após descobrir que sou eu quem segura a almofada; o apetite instável; os humores menos controlados; o cansaço...

E mesmo assim, não saber descansar. 

Estranho.

Já tive tempos mais activos: a trabalhar, estudar, cuidar de um elemento da família totalmente dependente e ainda assim manter a vida social, e organizar congressos e conferências. E sentia-me bem e feliz. E sabia descansar. Mas também tinha quem me faz falta ao lado. Isso animava.

 

Por vezes penso que a pandemia me envelheceu, roubou-me o fôlego no trabalhar horas frente a um computador. Faltaram-me as pessoas.

Tenho feito o esforço de reatar contactos (ainda não cheguei a todos, lá chegarei). Mas há laços perdidos. Bem sei, "é porque não eram assim fortes", é isso que se pensa. Mas não concordo. O problema é que o que eu sinto, muita mais gente sente também.

E aqui fico, a lamentar-me, cansada, sem saber descansar, à espera de um sol para me fazer à praia e afogar tristezas em mar salgado.

publicado às 18:20

04
Jun23

04/06/2023

por Quiquera

Ultimamente fala-se muito de burn out. Na minha profissão, associada à saúde mental, trabalho a prevenção do burn out dos outros.

Mas este fim de semana apercebi-me de como foi fácil esquecer o meu próprio descanso.

Chamou-me a atenção algumas características minhas estarem a reacordarem: os textos escritos com falta de letras a meio. Perder tempo a olhar para o ar a tentar recordar o que ia fazer. As palavras trocadas. Tudo sinais de que o cansaço está em grande.

Mas, asseguro-vos, quando chego ao ponto da troca de palavras, fico zangada comigo mesma.

Qual é a gravidade de trocar palavras? Experimentem estar a falar com alguém e repetidamente dizerem a palavra "semáforos" quando o que querem dizer é parênteses... E só repararem quando o outro refere não perceber o que queremos dizer.

Fico zangada, não por trocar as palavras, mas porque se cheguei a este ponto, então não tenho andado a prestar atenção às minhas necessidades. Lá diz o ditado: em casa de ferreiro, espeto de pau.

Mas percebo-me muito cansada. E isso deixa-me descrente no futuro e no mundo. Acorda o meu velho amigo pessimismo. Deixo de sonhar.

E, já agora, de escrever.

Preciso de férias mas, infelizmente, os tempos ainda não estão para isso. Tenho que encontrar a imaginação para me descontrair e ver que bolas posso deixar na prateleira, antes de voltar a grandes malabarismos. 

Tenho de vir aqui mais vezes desabafar a alma e deixar sair o cansaço nas palavras. 

Pode ser que ajude.

Já agora, cuidem-se. Tenham uma noite descansada

 

Quiquera

publicado às 21:19


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