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29
Mai23

29/05/2023

por Quiquera

É quase garantido.

Entro na casa de banho, para me preparar para a noite, e entra um deles pela janela.

Grande, desastrado, negro. Um daqueles animais voadores, a quem não consigo apelidar de borboleta.

Não sei se é por o comparar a mim, que de borboleta também nada tenho, ou se é a consciência, que me impede, inibe totalmente, de o matar. 

Deixo-o voar, enquanto lavo os dentes, intimamente rezando para que não me toque.

Mas não o mato.

Talvez seja o princípio ético de contrariar a natureza pseudo imaginariamente superior de ser humana. Talvez o remorso dos animais que morrem para que eu exista. 

Talvez seja pura inércia. Seria o mais provável.

Poderia fechar a janela, para que não mais entrassem, mas tenho horror a espaços totalmente fechados. Talvez por me lembrarem um qualquer futuro caixão. O destino inexorável, inevitável que é o fim de ser.

Assim, danço uma valsa de desvios. 

De um lado eu, desajeitada, de pasta de dentes na boca. Do outro o bicho negro, meio cego a ir contra tudo. Um par que, de tão improvável, tem tudo para conseguir uma dança perfeita. 

Foi um sucesso. Lavei os dentes e saí, fechando a porta atrás de mim.

Concedo-lhe o espaço, para uma noite descansada.

Quem sabe, talvez durma melhor do que eu.

 

Quiquera

 

publicado às 00:55


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