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27
Dez21

27/12/2022

Natal

por Quiquera

Longe vão os anos do Natal vivido na expectativa dos presentes.

Lembro-me da excitação que nos invadia, a mim e aos meus irmãos.

A tentativa de subornar a nossa irmã mais velha na esperança de que nos dissesse o que iríamos receber.  Nem nos passava pela cabeça que ela não soubesse, afinal sempre era a mais velha!

A noite de 24, sentados a ver televisão - lembro vagamente filmes a preto e branco do Charlot ou do Bucha e Estica - enquanto os nossos pais se afadigavam na cozinha a preparar a comida para o dia seguinte. O cheiro a fatias douradas (curiosamente algo que agora não consigo comer).

A dificuldade em adormecer para acordar mal amanhecia, para ver o que esperava por nós junto à árvore de Natal.

Tudo tão longe, tão cheio de neblinas passadas que por vezes me questiono se foi real.

Agora é a minha vez de preparar tudo na véspera, tomando conta da cozinha, controlando o que cada um traz e quando vem.

Com a chegada do futuro a expectativa deu lugar ao cansaço do final de dia, a acumular à de tantos outros dias.

Recupera-se parte da magia no olhar expectante das gerações seguintes, nos jogos com que se preenchem as horas de espera, com as gargalhadas partilhadas ao longo de anos de cumplicidade.

 

Este ano, nem tempo tive para passar por aqui a desejar um Feliz Natal, mas espero que vos tenha corrido tudo muito bem.

Tenham uma óptima última semana do ano!

Quiquera

 

publicado às 18:36

11
Dez21

11/12/2021

por Quiquera

20211211_021842.jpgNormalmente, na casa de meus pais, a árvore de Natal fazia-se a 8 de Dezembro.

Este ano, a procrastinação fez com que deixasse passar a data tradicional e que esta manhã a árvore continuasse na caixa, numa prateleira alta do armário.

Muni-me de paciência e trouxe tudo para baixo, decidida a levar a cabo a tradição.

Tirei a árvore da caixa. Sim, naqueles ímpetos ecologistas deixei de comprar pinheiros a sério. Embora, na realidade, pouco haja de ecológico num exemplar de plástico...

Montei a estrutura, tirei as bolas e enfeites de outra caixa, verifiquei as luzes.

Esta é uma tarefa que tenho de fazer com calma ou o resultado final nunca me vai agradar. E para tal, sentei-me a olhar a árvore.

De repente veio-me à memória os natais com a minha irmã, na nossa adolescência / início de idade adulta. Ninguém na família delirava com o Natal quanto ela! Agora, é à sua filha que cabe a exuberância dos festejos.

 

Era engraçada a transmutação na minha irmã em Dezembro. Descia sobre ela o Dr Jekyll e o Sr Hyde ia de férias.

É que a minha irmã tinha um feitio, digamos, complicado. Não me entendam mal, éramos unha com carne e nada na vida me custou tanto quanto despedir-me dela. Passados 15 anos a falta que me faz ainda é de uma imensidão assustadora. Ainda sei o número de telemóvel dela de cor. O cheiro do seu perfume. Penso nas coisas que lhe gostaria de contar.

Mas ela era difícil. Tão difícil que o meu pai, homem de parcas palavras (excessivamente parcas, asseguro) um dia deu-lhe três gritos e chamou-a de intratável. Ao que ela respondeu "E com muito gosto", derrotando-o na discussão.

Era assim, a minha irmã. Eu era das poucas que aguentava tranquila os seus embates. 

Mas chegava Dezembro e era vê-la! As músicas de Natal o tempo inteiro. 

Com ela, a tarefa de preparar a árvore, era mais do que isso. Era uma forma de arte, de tributo à vida.

Eu encolhia os ombros e ajudava no pouco que me pedia. O que, invariavelmente, incluía ir comprar a árvore verdadeira. Normalmente a pé. 

Um ano, os nossos pais trouxeram uma árvore falsa. A minha irmã ia tendo uma coisa má. Mas fiz-lhe sinal para se deixar de dramas e ela calou-se.

Numa saída dos nossos pais, no fim de semana seguinte, veio ter comigo e com uma amiga minha e disse, naturalmente: "preciso da vossa ajuda".

Saímos de casa as três e quando dei por isso estava a minha irmã a escolher um pinheiro. Feliz.

E feliz escolheu o maior que lá estava, com o apoio da minha amiga.

Fizemos os 15 minutos de percurso de regresso a casa, ela a dar indicações, eu e a minha amiga a carregar. Pelo menos até me zangar e largar a árvore no meio do chão, exigindo que ela ajudasse. 

O caminho todo protestei com ambas, a dizer que a árvore era demasiado grande, elas a dizer que não, que ia ficar óptima na sala.

A chegada a casa deu-me razão e acabámos a serrar parte do tronco, para que não batesse no tecto. Aventura terminada, deixei-a entregue à tarefa de enfeitar. Para mim já chegava de natalicismos.

Quando os meus pais chegaram a casa deram com uma filha orgulhosamente feliz, junto da sua obra, a ouvir os (eternos) discos de Natal. Nenhum dos dois refilou. Foram sábios. O meu pai encolheu os ombros, a minha mãe disse que era linda, e a paz durou até Janeiro.

 

Conclusão de tantas recordações: vou-me deitar e, na minha sala, fica uma árvore que continua por montar. Pode ser que, num sonho, a minha irmã me inspire.

 

Quiquera

publicado às 01:37

09
Dez21

09/12/2021

por Quiquera

Hoje,  aproveitando uma hora de trabalho desmarcado, fui dar uma série de voltas a resolver pendentes, aqueles que a preguiça foi empurrando até ao limite.

Tudo terminado entrei no carro e apercebi-me do maior movimento de automóveis.  Há dias em que andar no trânsito me provoca mais pele de galinha que o habitual e foi assim que, por conhecer bem os caminhos, fui entrando por ruas que há muito não percorria. 

Uma delas, uma pequena rua estreita, arrancou-me um sorriso e várias recordações. 

A meio, ainda discreta (embora já tenha sofrido remodelações) a porta para a biblioteca operária local, onde tantas horas passei na minha adolescência. 

Espaço, à época, fantástico onde se cruzavam adolescentes que ali aprendiam a tocar guitarra, flauta ou piano, jovens professores e músicos, adultos que aprendiam a ler e um magnífico coro feminino de mulheres trabalhadoras.

Ali vi o esforço de quem não tinha muito, mas que procurava encontrar caminhos com alguma imaginação (lembro o colega que queria aprender piano e tocava maravilhosamente, mas que em casa treinava num pedaço de cartão desenhado, até os pais lhe poderem dar um pequeno órgão eléctrico). Vi o esforço de quem, depois de um dia de trabalho, procurava aprender a ler e escrever, algo que lhes havia sido impossibilitado antes.

Ali, apaixonei-me. Desapaixonei-me.

Aprendi o prazer de tocar guitarra com o sentimento do momento.

Todo um mundo de relações e aprendizagens vieram à memória.

Ali aprendíamos uns com os outros. 

 

Ao passar em frente, tudo lembrei com carinho. 

E, no seguimento do caminho, ao afastar-me daquela porta, tive a sensação de me estar a afastar, de novo, da adolescente que fui.

Sem saudades.

Apenas com a estranheza de quem já não se reconhece nela.

 

Quiquera

 

publicado às 17:17

07
Dez21

07/12/2021

Rascunho

por Quiquera

Às vezes penso que a minha vida mais não é que um rascunho.

Uma série de paginas meio escritas, com notas à margem dos passos seguintes abandonados.

Uma espécie de guia, para quem vier a seguir.

E no meio, um tanto quanto perdida, fico eu, sombra incompleta do que havia de ter sido e não fui.

À espera do que já não vem. 

publicado às 01:06


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