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14
Abr24

14/04/2024

por Quiquera

Enquanto estou aqui sentada, na hora final de uma noite de pouco trabalho, descubro em mim uma sensação de inexistência, de irrealidade. 

De tanto escrever e apagar, concluo que nem sei como o explicar.

É como se me visse dentro do corpo de uma estranha, a quem observo, mas que não reconheço.

Penso que talvez esteja a ficar doida, ou simplesmente estou cansada. Afinal já é a terceira noite.

Mas... Esta sensação de não me reconhecer não é nova. É algo que cresceu com os anos. Alicerçada em comentários, elogios, criticas que me foram dadas, bem intencionadas, mas que aumentavam, alimentavam, está estranheza de mim em mim.

Quem terá razão? O que me vê de fora e diz o que vê, ou eu que comigo convivo a tempo inteiro, mas que sou incapaz de me reconhecer. 

Talvez se fechar os olhos e mergulhar no escuro da minha noite interna, consiga reencontrar a minha voz, o meu cheiro. O meu ser.

Talvez. Quando puder.

 

Quiquera

publicado às 05:46

28
Mar24

28/03/2024

por Quiquera

Por vezes penso que a nossa vida não evoluiu assim tanto, em relação aos nossos pais. O que me lembra a canção de Elis Regina.

Estou numa fase de mudança laboral. E nestes últimos meses tenho esticado a corda, trabalhando muitas horas. A diferença para a vida dos meus pais, é que a minha ainda rende do ponto de vista económico. 

Esta noite, há bocado, comecei a sonhar com férias e a pesquisar na internet. Entretanto, a chuva lembrou-me da roupa num estendal dentro de casa, com o desumidificador por baixo, a sugar a água. A máquina de secar avariou. O forno está nas últimas. O frigorífico está a começar a dar sinal... 

As férias vão pelo cano, junto com a água do depósito do desumidificador. Retirei a roupa seca, estendi a que ainda estava por secar. Enquanto isso pensei nas refeições de amanhã.

Foi aí que aconteceu: 

Juro!

Juro que saí de mim e me vi de longe;  confundi-me com a minha mãe, há uns anos. 

Com as conversas que ouço por aí ultimamente, ainda me convenço que reencarnei na vida e no tempo da minha mãe. 

 

Quiquera

publicado às 00:10

27
Fev24

27/02/2024

por Quiquera

É tão estranhamente pacificador pensar que, enquanto eu adormeço

Alguém trabalha;

Um pianista treina apaixonadamente no seu piano;

Um casal faz amor ternamente;

Alguém chora um desgosto de amor;

Outro percorre os silêncios abandonados de uma qualquer cidade;

Um bebé chora ao sair do ventre da sua mãe;

Alguém morre;

Alguém desiste de sentir.

E a unir-nos apenas este momento que termina no piscar dos meus olhos, que se fecham lenta e teimosamente

Por um instante? Para sempre?

Sem o saber, escolho, na mesma, adormecer.

 

Quiquera

publicado às 01:52

18
Fev24

18/02/2024

por Quiquera

A partir de uma certa hora, o edifício parece adormecido.

Como companhia tenho o zumbido do ar condicionado. O som de uma porta que se abre e fecha, lembrando que, afinal, não me encontro só.

As luzes desligadas automaticamente pela falta de movimento, acendem-se repentinamente, ao som dos passos do vigilante.

Fico sozinha. Atirada para um poço de pensamentos que me submergem.

Balanço-me na cadeira, pouco preparada para confortos nocturnos, e enfrento-me.

Revejo o meu passado, enquanto penso o futuro.

Será possível que a vida seja só isto?

Por vezes penso que ando a desperdiçar tempo. Que sempre andei.

Não que não tenha feito coisas que me deram prazer e orgulho. Não. 

Mas não as fiz por mim, na grande maioria das vezes. Fiz por amor. Por amizade. Por necessidade.

Agora, imprime-se em mim a sensação de que já vou tarde. A certeza de não te encontrar de novo aqui. Nunca mais.

 

O tempo. O tempo que parte. Que passa lento nos momentos de silêncio e tão rápido quando o vivemos.

Que não controlamos. Nem mesmo quando o sonhamos.

Quiquera 

publicado às 03:00

12
Fev24

12/02/2024

por Quiquera

Conta-me histórias. Dessas de embalar.

O sono não me vem. Resiste, como me resistem as tuas memórias.

Diz-me, com palavras coloridas, como é o mundo desse lado, tão distante.

Como distante é o tempo que nos separa.

Vá, eu começo: Hoje, aqui, choveu. 

Agora, vá, traz-me nas tuas palavras o teu cheiro, o teu olhar, as tuas mãos, que eu aqui estou à espera.

Conta-me histórias, que eu prometo que não adormeço. 

Apenas me embalarei na tua voz.

 

Quiquera

publicado às 00:47

06
Fev24

06/02/2024

por Quiquera

Foi estranho de tão natural.

Estava sentada, frente ao computador, ao lado a aparelhagem tocava uma canção ouvida centenas de vezes. Uma canção banal, não das que trazem recordações.

Lentamente fui acompanhando a letra e foi quando aconteceu. 

Senti-a, lenta e quente, a deslizar pela face: uma lágrima grossa.

Fiquei espantada! Eu, que só chorei em dois funerais na minha vida adulta, chorava agora com uma canção banal.

Ter-me-ia tornado sensível? 

Lembrei um dia em que, chegada da escola, encontrei a minha mãe deitada na cama, lágrimas copiosas a construir rios pela face fora. Ela a olhar o teto.

Perguntei se estava tudo bem

"Sim" respondeu "é só a música que é tão bonita".

Lembro da minha descrença traduzida no pensamento "outra discussão com o pai" e ir para a cozinha lanchar. 

Eu teria uns 14 anos, a minha mãe uns 50.

Tal como eu, que choro agora com música, 50 anos.

Concluo então que a questão não é a música, ou a sensibilidade. É a idade que nos retira algum travão às emoções. 

É então isto a pré-terceira idade. Uma espécie de segunda adolescência, mas carregada de experiências e no lugar dos sonhos vão surgindo recordações regadas a lágrimas que correm sem vergonha ou razão lógica. 

 

Quiquera

publicado às 00:41

07
Nov23

07/11/2023

por Quiquera

Invejo as mulheres de cintura marcada,

Vestido cintado,

Companheiro com quem partilhar cama, contas e vida.

 

Invejo a liberdade de quem segue em frente,

sem dores nem rancores

com caminhos traçados à mão.

 

Invejo os que sonham

E traçam metas e objectivos

E os cumprem linearmente, liminarmente.

 

Invejo a paz de espírito

do eu menina

que não invejava ninguém.

publicado às 19:21

18
Ago23

18/08/2023

por Quiquera

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É incrível o silêncio que se pode fazer sentir numa noite de nevoeiro.

Como se todo o mundo se tivesse eclipsado na limpidez do dia

O cheiro a maresia enche-me os pulmões, o céu avermelhado confunde um pouco a noção de tempo. 

Procuro no relógio a surpresa de já serem 5 da manhã.

Ao longe, subitamente, um som repetido. Algum despertador ignorado?

Espanta-me o regresso da insónia, que julgava desaparecida. As últimas noites têm sido de sonhos e pesadelos, alternados.

O frio e a humidade convidam ao regresso à cama, ao pouco calor que ali encontro. Mas receio voltar ao sono.

Não sei o que me angustia mais: se os pesadelos, se os sonhos em que os mortos regressam para conversar.

Parece que o nevoeiro desperta em mim a saudade de invernos longínquos, em que o calor dentro de mim era maior do que o do sol. 

 

Fazes-me falta.

 

O despertador desconhecido continua. O seu dono não acorda, mas eu desperto do torpor de pensamentos irrequietos. 

Talvez seja para isso que toca. Para me despertar de memórias inglórias.

Inebria-me este cheiro a mar, a noite fria, a silêncio. 

 

Talvez possa fingir que ainda aqui estás.

 

Entretanto o despertador calou-se.

É tempo de voltar ao sono.

Aos sonhos, talvez.

Mas permaneço, sentada a olhar o nevoeiro, a escutar o regresso do piar da coruja. Único som que me acompanha.

Falta-me a coragem para enfrentar a cama.

 

publicado às 04:55

09
Ago23

09/08/2023

por Quiquera

1:44.

A noite está parada, silenciosa.

Minto.

Quando atento no silêncio, percebo os estalidos dos ramos sob o peso da humidade.

Fora isso, quase nada. 

Um carro que passa, ligeiro.

Sonho alguém de regresso a casa. Um corpo que o espera.

As corujas não se mostram. 

Os grilos ou cigarras também não. 

(Nunca sei qual é qual.)

Da janela as árvores, quietas, albergam mais silêncios e quietudes.

Às vezes, perante tal silêncio, apetece-me fazer um estrondo. Só para garantir que o mundo não é apenas sonho.

Uma espécie de rebeldia, que sobe por mim, que toma o poder, faz-me sorrir, travessa.

Ajeito os lábios e assobio. 

Nada de muito barulhento, não.

Apenas o suficiente para que, da luz do prédio em frente, surja a sombra de alguém que espreita.

(Talvez o tal corpo que espera o carro.)

Sorrio para o céu avermelhado, reconfortada pela confirmação.

O mundo continua lá fora e eu ainda não sou sonho apenas.

 

Quiquera

 

publicado às 01:43

30
Jul23

30/07/2023

por Quiquera

Na aridez em que me tornei, nada cresce, nada se cria

Os silêncios ocupam espaços indefinidos por abrir

Sinto formigueiros, ausências de me sentir

Sem que nenhum toque me converta

Em ser real de novo

Pressinto que em breve quedar-me-ei

Apenas transformada em espuma dos dias

Em pó nocturno, a coberto da lua

Sobre o mundo pairar

Até que a memória se esbata

E deixes de ser em mim

E eu cesse de ser também

 

publicado às 19:54


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